Domingo da Santíssima Trindade
[26 de maio de
2013]
As consequências da fé
batismal
[Jo
16,12-15]

Celebramos
hoje a Solenidade da Santíssima Trindade. Quase sempre, neste dia, ficamos
presos a explicações intelectualizantes sobre a Santíssima Trindade. É uma
tentativa de ‘explicar o inexplicável’. Ou seja, o Mistério de Deus em Três
Pessoas deve ser crido e não explicado. Deve ser entendido, porém a partir do
‘mergulho’ (batismo) nele. No dizer de Santo Agostinho “é preciso crer para
entender” (credo ut intelligam). Ultrapassa nossa inteligência humana e
limitada, mas não a contradiz. É um mistério que nos envolve, nos fascina, nos
encanta. Não se trata de algo inacessível ou incognoscível. Mas trata-se de um
mistério que nos ultrapassa. Enquanto não entrarmos nele para nele nos movermos
e existirmos [cf. At 17,28], não conseguiremos compreendê-lo.
Desejo
discorrer um pouco sobre a profissão de fé, realidade implícita ao batismo,
sacramento que nos introduz na vida de Deus e na comunidade cristã. Até porque
estamos no Ano da Fé, proclamado pelo Papa Emérito Bento XVI.
Imediatamente
antes de derramar a água na cabeça daquele que vai ser batizado, o ministro o
convida a fazer a promessa de ‘renúncia ao mal’ [conversão]; em seguida o
convida a professar a fé. Por este ato a Igreja professa sua fé no Pai, no
Filho, no Espírito Santo. Fé que renovamos todos os domingos em nossas
celebrações. Queremos ajudar a compreender o que isso significa em nossa
vida.
Creio em Deus Pai todo
poderoso:
reafirmamos nossa fé em Deus que é nosso Pai, que nos criou e cuida de nós com
carinho. Um Pai que não nos abandona. Mesmo quando passamos por sofrimentos e
tribulações, por dificuldades que não compreendemos e que por vezes não buscamos
nem merecemos, Ele está ao nosso lado. Ampara-nos com seu amor que nunca falha.
Sua promessa jamais será tirada. Podemos dizer com confiança Pai nosso,
isto é, Paizinho querido [Abbá]! Mesmo que estejamos naquelas situações de
risco, de desespero, de desalento, de decepção, Ele está perto de nós. Muitos o
negam. Muitos quebram a aliança de amor que Ele fez conosco. Nossos filhos
recusam seu amor. Mas Ele continua fiel e amoroso. Podemos confiar nele. Cremos
nele!
Creio em Jesus Cristo, seu único
Filho, nosso Senhor. Jesus, o Filho do Pai amado. É o
presente de Deus para nós. Veio a esse mundo e entregou sua vida por nós.
Mostrou-nos quem é o Pai. Seus gestos e palavras são expressão de que o Pai nos
ama e quer nosso bem e nossa salvação. Devolve a saúde aos doentes, dá o perdão
aos pecadores, acolhe a todos que vêm a ele em busca de conforto, de perdão e de
paz. Tudo nele revela o rosto bondoso e maternal do Pai/Mãe que cuida de todos
com carinho e amor. O Filho mostrou-nos o caminho da vida: é preciso amar
sempre, até o fim, dar a vida. “Sede misericordiosos como o Pai é
misericordioso”. Se nos esquecemos de Jesus, se o deixamos de lado, quem vai
preencher o vazio do nosso coração? Somente Jesus pode preencher as profundezas
e compreender as dobras do nosso coração. Somente uma vida vivida de acordo com
o ensinamento de Jesus pode ser verdadeiramente feliz. É a consequência do
batismo.
Creio no Espírito Santo, Senhor que
dá a vida: é o
mistério que celebramos no domingo de Pentecostes: o Espírito Santo foi
derramado em nossos corações. Recebemos a missão de ‘fazer discípulos e de
batizar’, porém com a força do Espírito Santo. Ele já nos foi dado. Está dentro
de cada um de nós. É o amor do Pai e do Filho. É o “Vento” santo de Deus que nos
coloca em movimento, como aconteceu à Virgem Maria que, uma vez inundada da
força do alto, foi às pressas ajudar sua prima Isabel. Esse “Sopro” santo nos
deixa leves, nos ajuda a abandonar as “obras da carne” para vivermos a
“liberdade dos filhos de Deus”. É o “sopro” que nos perdoa, nos liberta, nos
santifica, nos leva em direção àqueles que precisam de nós. É o Espírito de Deus
que nos ajuda a vencer o espírito do mundo: o lucro a qualquer custo, a
ganância, a mentira, a corrupção, a exploração, a preguiça, o comodismo. É o
“Senhor doador da vida” que nos move a defender a vida sempre e em qualquer
circunstância.
É
nessa fé que fomos batizados. É essa a realidade que professamos e que somos
chamados a viver. Não se trata, pois, de ‘segredos’ nem de ‘mistérios’, mas de
um convite amoroso a vivermos essa fé trinitária, fazendo de nossa vida um hino
de louvor à Trindade Santa: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo para
sempre. Amém. Lembrados sempre do dizer de Santo Irineu de Lião: “A glória de
Deus é o ser humano vivo. E a vida do ser humano é a visão de Deus”.
Santo
Agostinho, tentando entender o Mistério da Santíssima Trindade, passeava pela
praia e viu uma criança colocando água do mar num poço feito na areia. Brincou:
“O mar nunca caberá aí”. Ao que a criança respondeu: “Assim também não vai caber
na tua cabeça o mistério da Santíssima Trindade”. Pois bem, se não conseguimos
colocar o mistério do amor de Deus em nossa cabeça, coloquemos nossa cabeça e
nossa vida toda dentro desse mistério!
Pe. Aureliano de Moura Lima,
SDN
MANHUMIRIM,
MG
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