11º Domingo do Tempo Comum
[16 de junho de
2013]
PECADO, PERDÃO E PRECONCEITO
[Lc 7,36 –
8,3]
Antes de tudo é preciso ressaltar que Lucas dá grande
destaque, em seu evangelho, à misericórdia de Deus e às mulheres, dentre outros.
E o evangelho deste domingo quer visibilizar esse perdão de Deus que transcende
toda fraqueza e pecado humanos. Também destaca as mulheres como constituintes do
grupo dos discípulos.
O
relato do evangelho deste domingo nos permite refletir sobre três elementos
presentes nas nossas relações com Deus e com os irmãos: o pecado, o perdão de
Deus, o preconceito.
O
evangelho mostra que Jesus não tinha medo de pessoas mal-afamadas. Naquela
atitude da pecadora que chora a seus pés, esconde-se o mistério do amor de Deus.
A mulher mostrou muito amor porque encontrou grande perdão.
O pecado: é a recusa do amor e da comunhão
com Deus. É recusar-se a amar. E traz como consequência a desagregação do ser
humano e da sociedade. Deus é a fonte de vida. Ora, recusar-se a acolher o amor
de Deus é desprezar a fonte de vida. A consequência disso é a morte, cujo sinal
é a morte física. Os males que nos cercam como a violência, a corrupção, o
tráfico de drogas e de seres humanos, a coisificação da pessoa, a ganância, da
dominação do outro, a traição, a mentira, a exploração irresponsável da Mãe
Terra são realidades de pecado que traz em seu interior a destruição, a dor, a
tristeza, o desencanto, a morte.
O perdão: o evangelho de hoje vem nos mostrar
que Jesus veio para destruir o pecado e fazer brotar vida nova. Ao acolher
aquela mulher pecadora na casa de Simão, o fariseu, Jesus deixa transparecer o
rosto misericordioso do Pai. E aqui é preciso notar um aspecto muito importante
do relato de hoje: o perdão de Deus precede o amor humano. Aquela mulher amou
muito porque se sentiu perdoada, amada por Deus. Não se pode entender o perdão
de Deus como resposta ao amor humano, mas pelo contrário, o amor que o ser
humano manifesta a Deus revela sua acolhida ao perdão do Pai. O ser perdoado é
motivo mais forte para amar mais a Deus. “São amigos de Deus aqueles que
reconhecem diante de Deus sua dívida de amor e dele recebem a remissão. Então,
abrir-se-ão em gestos de gratidão, semelhantes ao gesto da pecadora” [Pe. J.
Konings].
O preconceito: é outro elemento que precisa ser
considerado no relato de hoje. Vejam que aquele fariseu [portanto, religioso
observante] lançou sobre aquela mulher um olhar de terrível preconceito. “Vendo
isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: ‘Se este homem fosse um
profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora’”.
O
preconceito é um dos grandes males da sociedade e da Igreja. Olhamos a pessoa
por fora, pelos rótulos que lhe foram colocados. Temos imensa dificuldade em
lançar um olhar de profundidade como o de Jesus. Custa-nos ver as pessoas além
das aparências. Jesus enxergava a alma da pessoa. Ainda que estivesse tomada
pelo mal, Jesus procurava compreender, tomar pela mão e ajudar a se
erguer.
Quando
nos lembramos das mulheres prostituídas, então sim, pesa mesmo um olhar
preconceituoso. A sociedade as discrimina e condena. O mesmo faz a Igreja, com
raras exceções. São usadas como objeto por grandes e pequenos. Há gente graúda,
cheia de dinheiro e de poder, às vezes muito religiosas até, que se valem das
mulheres como mercado para satisfazerem a seus caprichos e desejos desordenados.
Depois as jogam na sarjeta do preconceito e do desamparo. A respeito delas
escreve Pe. Pagola: “Estas mulheres enganadas e escravizadas, submetidas a toda
sorte de abusos, aterrorizadas para mantê-las dominadas, muitas sem proteção nem
segurança alguma, são as vítimas invisíveis de um mundo cruel e desumano,
silenciado em boa parte pela sociedade e ignorado praticamente pela Igreja.
Seguidores de Jesus não podemos viver indiferentes ao sofrimento destas
mulheres. Nossas Igrejas diocesanas não podem abandoná-las à sua triste sorte”.
Compreende-se então porque Jesus disse: “Os cobradores de impostos e as
prostitutas vos precedem no Reino de Deus” [Mt 21,31].
O
fariseu que convidou Jesus era um homem profundamente religioso, mas não foi
capaz de ultrapassar uma religião de rito. Assim só ocorre dentro de nossas
comunidades: há muito rito e pouco empenho em transformação pessoal e
comunitária da realidade. O farisaísmo ainda vigora sem peias.
Penso
que uma atitude urgente de conversão que devemos tomar é a de acolher a pessoa
humana como Jesus, olhá-la com o olhar de Deus e arrancarmos de nosso coração o
preconceito que faz tanto mal. Preconceito contra as mulheres [que constituíam o
grupo dos discípulos de Jesus!], contra outros grupos e movimentos. Buscarmos
compreender o que se passa por dentro de cada ser humano bem como as motivações
que os levam a assumir essa ou aquela postura na vida. Compreendermos cada um
dentro de seu contexto de vida e ajudá-los a fazer um caminho de seguimento a
Jesus. É essa a nossa missão, pois foi a missão de Jesus.
Pe. Aureliano de Moura Lima,
SDN
MANHUMIRIM,
MG
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