15º Domingo do Tempo Comum
[14 de julho de
2013]
UMA IGREJA SAMARITANA
[Lc 10,25-37]
O evangelho de hoje vem provocar os líderes religiosos a fazer um
exame de consciência. O interesse daqueles homens do templo era exercer seu
papel no culto do templo. Uma prática religiosa totalmente separada da vida. O
relato deixa entrever que, para o sacerdote e o levita, basta o culto no templo.
A salvação está em realizar um rito e cumprir normas religiosas. Já a atitude do
samaritano, recomendada por Jesus, vem mostrar que o mais importante na vida é o
cuidado com o outro que precisa de mim, independente de quem seja. É o princípio
da misericórdia que opera a salvação do ser humano.
Nos
seminários, casas de formação e no clero de modo geral, há uma excessiva
preocupação com objetos e práticas litúrgicas. Não que essa realidade da Igreja
não seja importante. Enquanto ela nos torna mais identificados com Cristo, nos
aproxima mais dos sofredores. O problema está no excesso. Há uma concentração no
templo em detrimento daqueles que estão nas “periferias”. Olhando a vida dos
santos nós os notamos envolvidos e preocupados com os marginalizados. Muita
gente de Igreja, hoje, pensa que ser santo é estar dentro do templo. Não há uma
distância entre a santidade proposta pelo evangelho, que é viver a compaixão
para com os sofredores, e a proposta que alguns grupos e líderes religiosos
fazem, hoje?
Onde
estamos? Como temos vivido nossa fé cristã? Que tipo de envolvimento e de apoio
temos dado às pastorais sociais [pastoral da criança, pastoral carcerária,
pastoral do menor, pastoral de rua, pastoral familiar, associações de bairro,
guardiões da cidadania etc]? E o caminho de conversão pastoral que a
Igreja deve fazer?
* * *
“VAI E FAZE A MESMA
COISA”
“Quem
é o meu próximo?” foi a segunda pergunta daquele escriba que buscava saber o
caminho que conduz à vida eterna.
É
interessante notar que as pessoas se apresentavam a Jesus e faziam suas
perguntas e pedidos a partir de seu lugar social. Os excluídos e marginalizados
pediam para andar, enxergar, ser saciados, ser reintegrados ao convívio social
etc. Já aqueles que possuíam uma condição de vida estável, social e
financeiramente, queriam saber o caminho da “vida eterna”: “O que devo fazer
para alcançar a vida eterna?” Sua preocupação estava mais com o
pós-morte.
Jesus
conta uma historinha que faz pensar mais concretamente. E a sua resposta àquele
homem implica a vida eterna. Ou seja, a vida eterna está intimamente relacionada
com a vida que levamos aqui. O mandamento do amor a Deus acima de tudo [Dt
30,10-14] está estritamente ligado ao amor do próximo.
Quem
quiser alcançar a vida eterna precisa “perder” a sua vida pelos outros. O
samaritano estava em viagem, com um programa de vida, certamente com os dias e
os negócios marcados. De repente aparece aquele “estrangeiro” em sua vida. E ele
socorre. Diferentemente dos ‘servidores’ do Templo, que não tinham tempo a
perder nem podiam se contaminar com aquele homem semimorto.
A
resposta de Jesus à conclusão óbvia do escriba [próximo foi aquele que usou de
misericórdia com o homem caído] nos remete à Eucaristia: vai e
faze o mesmo. O verbo fazer
está nas palavras da instituição: “Fazei isto em
memória de mim”. O fazer para alcançar a vida eterna
se mistura com o fazer do cuidado com o próximo e o
fazer isto em memória do Senhor. A eucaristia que
celebramos nos envia sempre a fazer algo pelo próximo.
“Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais
pequeninos, a mim o fizestes” [Mt 25, 40].
Não
basta saber quem é o meu próximo, mas fazer-me próximo daquele que precisa de
mim naquele momento. Cuidar da avó ou da tia idosa visando a herdar sua casa,
seus bens, usufruir de seus benefícios previdenciários não é amar. Amar é cuidar
desinteressadamente, na gratuidade, oferecendo o que somos e temos: azeite,
vinho, cavalgadura, dinheiro.
Se
a Eucaristia que celebramos não nos move ao encontro do próximo, a sairmos de
nós mesmos, a doarmos um pouquinho de nosso tempo, de nossos dons, de nossas
coisas àqueles que precisam de nós, então nosso louvor estará sendo somente de
lábios, longe de Deus: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está
longe de mim” [Is 29,13].
Para
ajudar um pouco mais: Num bairro pobre, onde há muitas crianças cujas mães não
podem trabalhar porque precisam cuidar de seus filhos, vivendo por isso uma vida
miserável, há dois grupos de pessoas interessados em ajudar. Um grupo pensa em
se organizar e fundar uma creche possibilitando melhor qualidade de vida para as
crianças e para as mães. Outro grupo se preocupa em arrecadar cestas básicas,
fraldas, remédios, leite etc. Como se podem entender essas diferentes práticas?
Com que grupo me identifico mais? Qual grupo se aproxima mais do evangelho?
Pe. Aureliano de Moura Lima,
SDN
MANHUMIRIM,
MG
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